sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Aquele dia


Minha reação foi melhor que eu esperei. Desde quando me entendi por gente (adulta), é que as pessoas ao meu redor tentavam me preparar de alguma forma para isto. Um aconteceminto que todos esperam, mas ninguém sabe.
O amadurecimento de menina a`mulher é um processo lento, transformador e difícil. Você é obrigado a enterrar suas ilusões infantis e suas esperanças de que, um dia, você vai viver um belo romance ou um conto de princesas da Disney. Sim, aquelas que eu nunca gostei nem admirei.
Eu estava de preto, a minha cor favorita, mas que parecia totalmente indiferente no momento. As pessoas vinham me comprimentar com abraços e lágrimas, e palavras de consolo, e aquelas milhares de baboseiras que deveriam servir como consolo, mas que todos sabem que de nada adiantam.
Era dia, o sol brilhava com toda sua força e, eu, amante do verão e seus prazeres, não diferenciei o peso do momento com a claridade do dia. Apesar da luz, parecia que estava escuro. Bom, algo estava.
Lembro-me de ver pessoas chorando, enquanto eu estava imóvel, querendo apenas correr pra longe. O momento te deixa sem saída, mas eu sabia que tinha de estar ali. Não sei por que, não sei por quem, mas fiquei até o fim. Até todos se recomporem, se despedirem, trocarem algumas palavras, abraços e saírem andando devagar e de cabeça baixa. Porque é assim que tem que ser, sempre é assim, e por que seria diferente?
Ela veio me abraçar depois, aquele abraço que só mães sabem dar, e disse que eu tinha reagido muito bem, e que tudo ia ficar bem. Será? Eu não me lembro de ter sido eu em nenhum instante. Tanto é que a tristeza que eu sentia tomou a forma de uma pessoa ao meu lado, mas eu não a senti diretamente. Tão forte e real era, que parecia ter se solidificado.
De-repente, eu estava em casa, sentada na cama e, logo depois, no chão. Lembro que a tarde chegou e, com ela, o barulho da porta se abrindo. Nem olhei para saber quem era. Ele se sentou ao meu lado e me ofereceu não só um ombro de consolo, mas um abraço e um carinho tranquilizante. Lembro de uma pontada de desespero enorme, como se fosse uma queda brusca à beira de um precipício; um rio estava pronto para vazar pelos meus olhos, mas não me lembro de ter soltado sequer uma lágrima.
E, então, o anoitecer veio, junto com o lembrete de que tudo tem um fim certo, mesmo os piores momentos. Meu menino me beijou e disse que ficaria lá o tempo que fosse preciso para me ver bem. Eu sorri, e não precisei me esforçar pra isso. Sorri mesmo sabendo que, por mais que ele amasse meu sorriso, não dava pra fingir. Eu sorri sabendo que uma hora ele teria que voltar pra sua casa, sua rotina.
E eu não me importei, diferente das outras despedidas. Quando a porta bateu, simplesmente olhei para o crepúsculo que transformava o céu em um mosaico de cores e estrelas. Contemplei por um instante o que era infinito, em uma imensidão bela e sem fim,  que dizia pra eu me colocar em meu lugar e apenas ser o que o momento pedia, um ser humano. Em uma pequena estrela ele tinha se tranformado, e eu nunca o tinha perdido de verdade.
01/08/2014
J.Green

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