- Você Sabe que eu não sou como os outros garotos da minha idade. Eu não vou mais pra escola, por isso tenho tempo de estudar o instrumento que eu quiser, quanto tempo eu quiser.
-O instrumento que quiser? – Perguntei, com um sorriso irônico.
-Você entendeu. – Ele sorriu como se estivesse envergonhado. – Qualquer um que eu tenho aqui. O piano, o violino e o violão. – Ele mostrou com os braços todos os instrumentos, como se estivesse me apresentando a eles.
-Eu entendi. – Fui entrando na sala- O que você gosta mais de tocar?
-Eu sei tocar um pouco de todos aqui. – Ele chegou perto do piano começou a alisá-lo- Mas o que mais me dá prazer de tocar é o piano. – Ele se sentou no banquinho que havia em frente ao instrumento- O som dele me fascina, sabe? – Ele se virou pra mim- É uma eterna descoberta. Sempre tem uma nota para acrescentar, um sustenido, um legato para dar mais fluidez à melodia...
-E o que é isso aí ? – Apontei para uns papéis em cima da tampa que cobria o teclado.
-Ah- ele ficou subitamente vermelho- Não é nada, é uma música que eu venho compondo há um tempo, mas não tá legal ainda, preciso dar uma melhorada.
-Ah, qual é, tá com mó cara de boa!
-
Você toca alguma coisa?
-Não.
-Entende de teoria?
-Nem um pouco.
-Então como sabe que está boa?
-Intuição.- Sorri pra ele e me encostei no piano. Ele me olhou, descrente.- Se foi você que fez, com certeza está boa.
-Você tá superestimando meus “talentos”, Bel. Eu não sou tão bom assim.
-Para com isso, toca ela pra eu ver.
-Você tem o dom do convencimento, não é possível. – Eu ri, e ele abriu a tampa, mostrando as teclas perfeitamente limpas do piano - Ok, eu toco, mas só porque é você.
-Ok. – me sentei ao lado dele no banquinho. – Vai atrapalhar, eu sentada aqui?
-Nem um pouco. – Ele olhou pra mim com uma expressão alegre; E após um longo suspiro, começou a tocar.
Os dedos dele voavam pelas teclas, ora com mais delicadeza, ora com mais força, mas com um ritmo impecável. Parecia que em cada tecla que ele batia , havia um pedaço da sua alma. Ele transcendia àquele momento, parecia que estava em outra dimensão.
Por um instante imaginei que se eu saísse, ele nem ia notar.
Sobre a música, nem é preciso comentar; Era perfeita. Nunca ouvi um som tão agradável e emocionante como aquele. Eu simplesmente não sei descrever... A melodia e o acompanhamento se completavam, e me envolviam como se eu estivesse dissolvida nas pentagramas, escondida em cada nota e em cada pausa.
Fechei meus olhos e voei.


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