sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Metades

Quando os dois se tornam um, e uma metade da laranja se perde



                                                          

“I'll run away with your foot stepsI'll build a city that dreams for twoAnd if you runaway, I willFind you”

Zedd- Find You


A gente tem esse negócio de querer viver pro outro, de fazer do outro a nossa fonte de bem estar. Mas acontece que, muitas vezes, a pessoa que nos agarramos por ser nossa válvula de escape também nos decepciona, afinal, é um ser humano como qualquer outro. Objetos inanimados não respondem e idealizar uma realidade que não é a sua, ficando nela para aliviar os pensamentos, também não e a melhor decisão.

Eu penso muito nisso quando olho casais, amigos, ou o que quer que seja, que tenha se transformado em uma relação de dependência- algo desesperador, para falar a verdade (só de olhar)... As mãos estão entrelaçadas mesmo quando se falam ao telefone, o amor de um arrasta o outro, e a dependência se instalou como um filho, que é responsabilidade dos dois manterem vivo. E se um deles um dia falha, o mundo do outro desaba, é assim que acontece, quando os dois se separam para seguir o seu caminho, eles percebem que já perderam sua personalidade.

Pera, do que eu gostava antes de acompanhá-lo sempre em lojas de música e instrumentos? O que eu fazia de domingo a tarde antes de frequentar os almoços na casa dela? Qual foi a última vez que dormi sem receber um boa noite e acordar com um bom dia alegre? Qual foi a última vez em que tive uma paz interior e descansei por completo sem pensar que o que tínhamos tinha se tornado um compromisso para saciar nossa insegurança?  

Qual foi a última vez que levantei os olhos para encarar outras pessoas quando ela estava por perto? Quando foi que me perdi em minha própria vida e passei a viver inteira e completamente a sua? Seus sonhos eram meus sonhos. Sua alegria era minha tranquilidade e os seus medos me incomodavam.

Escrever sempre me aliviou mas, com você por perto, eu abandonei meu por hábito por pensar que você me completaria. Suas músicas, você as deixou pra trás também. Pensei que só você seria necessário para preencher o vazio que todo mundo tem.,. e aposto que você pensou o mesmo sobre mim.

Como seu perfume se alastrou rapidamente pelo que chamam de coração, eu achei que era você minha cara metade, que, para eu ser feliz, só bastava a gente ser feliz. Mas não foi assim. Não é assim. Acabou se tornando um vício que eu não pude mais controlar. Onde um estava, o outro estava também, tinha se tornado uma sombra que se arrastava por todos os cantos.

Nosso nome se tornou um lugar-comum. Eu bem queria, desesperadamente, largar tudo pra ficar só com você, mas o que acontece é que a vida vai nos pedir outra coisa; para pode sobreviver nessa selva sem cor é preciso independência, tempo...coisas que, juntos assim, não vou conseguir.

Inevitavelmente, nossos caminhos iam chegar ao fim alguma hora. Não dá pra dizer que duraria pra sempre, porque consumirmos demais um do outro, como uma chama que termina em pólvora. Se continuássemos juntos, acredite, ia acontecer uma implosão- pode até parecer engraçado, mas nós iríamos viver meio que saturados um do outro. Cansados, com essa sua cara de preocupação e de querer estar sempre certo e eu, claro, quase um espelho, com os mesmos sintomas.

Para eu não te impedir viver (porque eu me incomodava com muita coisa do seu cotidiano) eu tive que abrir mão de você. Porque é muito mais fácil e cômodo perder uma pessoa do que mudar nossas próprias vontades para agradá-la.

Foi tudo muito intenso, muito rápido, e acabou tomando proporções que eu jamais imaginei quando você fez aquele pedido simples em uma tarde tranquila. Eu sorri e aceitei sem ter a ideia de que viveríamos assim, a todo momento, sendo tão iguais e compartilhando da mesa opinião.

No começo foi bonito. O nervoso, a vontade de conversar.... te ver todo dia me fazia dormir suspirando e acordar sorrindo, mas agora se tornou um peso. Agora, você se tornou algo certo, presente até quando eu quero ficar sozinha. E mesmo sem ninguém eu sinto sua presença. Me observando. O que achei lindo agora me sufoca. É claro que isso tudo é válido pra você também.

Ah, como pudemos achar que isso teria futuro? Não tinha nada errado, nada que fosse forte o suficiente para acabar com o amor. Não tinha Daniel Radcliffe ou Emma Watson capazes de esfriar a nossa vontade de estar juntos.

É que nós tínhamos nos tornado tão “dois”, que eu quase não enxergava você além do que eu via. Você era meu, e fim. E eu era sua. Não tinha mais o menino que gostava de música e a menina que amava ler e escrever.

Talvez todas as nossas esperanças e desejos só serviram pra manter a temperatura, o status e, como disse, saciar o nosso pavor de solidão. Mas tudo isso se perdeu, passamos a conviver de uma maneira doentia achando que aquilo ia nos curar. Mas estávamos errados.

Não existe esse negócio de se tornar outra pessoa, de querer insistir em fazer dar certo quando uma das metades se perdeu. Não dá pra completar o que já é inteiro. Hoje, olhando pra trás, eu me arrependo. Sabendo que não dava pra ser desse jeito, a gente deveria ter desistido dessa história de “metades”; parando para pensar bem, era melhor que tivéssemos sido um.
28/08/14Jenny Green


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